Em março de 2007, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e George W. Bush, dos Estados Unidos, assinaram acordo de cooperação bilateral para pesquisa e desenvolvimento de combustíveis produzidos com matéria orgânica, os biocombustíveis. Os dois países, que já são líderes na produção de combustível vegetal, saem, assim, na frente na corrida pela liderança do setor. A iniciativa abre novas perspectivas para o Brasil, pois o país é um dos mais adiantados nessa tecnologia, que vai determinar os rumos da produção mundial de combustíveis nos próximos anos.
No Brasil, a produção de biocombustível, em particular o etanol feito da cana-de-açúcar, vinha sendo impulsionada desde o início desta década pelo aumento da frota de veículos com motores flex, que funcionam com mais de um tipo de combustível.
Recentemente, houve novo estímulo à produção quando países ricos começaram a tornar público que pretendem adotar alternativas para os derivados de petróleo. As discussões ainda estão na mesa dos governos.
De concreto para o Brasil, já existe um acordo bilateral com a Alemanha para a produção de 100 mil veículos movidos a álcool. Ao importar os veículos do Brasil, os alemães terão como cumprir seu compromisso com o Protocolo de Kyoto, que prevê a redução da emissão de poluentes.
Plantio extensivo
A adoção de um biocombustível como o álcool em escala internacional traria benefícios econômicos ao Brasil. Ocorre que esses ganhos podem vir acompanhados de terríveis prejuízos sociais e ambientais, se não forem tomadas as medidas necessárias para evitar o pior. Isso porque a produção de combustível vegetal pode reconduzir o país à prática da monocultura da cana-de-açúcar.
A monocultura é o plantio extensivo de um único vegetal. Ela traz desvantagens ambientais ocorrem porque exaure o solo com o tempo e reduz a biodiversidade. As desvantagens sociais ocorrem porque reduz o uso da mão-de-obra no campo e afugenta as populações rurais.
E ainda há desvantagens econômicas, pois apresenta enormes riscos, já que uma única doença ou praga ou a queda do preço do produto no mercado podem pôr a perder toda a cadeia produtiva regional.
Apesar da multiplicidade do agronegócio brasileiro, pode-se dizer que em grandes áreas do país já se pratica a monocultura da soja, a principal estrela da agricultura nacional e responsável até 2005 por 44% de toda a área cultivada do país.
Hoje, no entanto, o maior temor é que o interesse internacional pelo biocombustível seja tão grande que a cana-de-açúcar se torne uma cultura predominante de extensão ainda maior do que a da soja. A produção de óleo em larga escala também exigirá o cultivo de enormes extensões, e cada produtor tende a escolher uma única planta, para facilitar e baratear o plantio.
O biodiesel pode ser produzido com óleos vegetais extraídos de diversas matérias-primas, como palma, mamona, soja, girassol, dendê e algodão, entre outras. Como se vê, o leque de recursos naturais no Brasil é muito grande, mas, dentre os vegetais mais adequados para a produção de biocombustível, está a cana - largamente conhecida pelos agricultores brasileiros há cinco séculos.
Liderança no setor
O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar e álcool. A colheita brasileira de cana-de-açúcar na safra 2006/2007 está estimada em 470 milhões de toneladas, cerca de 8,9% mais do que a safra anterior (veja aqui a estimativa de produção¿nos próximos 10 anos).¿Apenas no caso do álcool, o país registrou em dez anos aumento de 16% na produção, impulsionado sobretudo por seu uso como combustível.
No caso do desenvolvimento do combustível vegetal, a cana sai na frente porque tem alta produtividade e resulta num produto de melhor qualidade. O Brasil domina o processo de fabricação do álcool combustível desde a criação do Programa Brasileiro do Álcool (Proálcool), em 1975.
Hoje, o setor sucroalcooleiro movimenta 20 bilhões de dólares por ano e é o principal agente do Programa Nacional de Biocombustíveis. Um estudo da Única, a associação dos produtores de derivados da cana, indica que o setor - que hoje produz cerca de 18 bilhões de litros de álcool ao ano - terá de chegar até 2010, a 28 bilhões de litros.
É por tudo isso que os produtores preferem adotar a cana. Dessa forma, o plantio canavieiro, que já era grande, tende a crescer significativamente. Por várias razões, a transformação do Brasil num enorme canavial preocupa agrônomos, economistas e ambientalistas.
A primeira questão que se coloca é se o plantio desenfreado poderia pôr em risco a produção de alimentos. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) teme que os agricultores familiares envolvidos na produção de biodiesel optem por concentrar-se apenas nas culturas usadas como matéria-prima dos combustíveis em áreas destinadas ao cultivo de alimentos.
Para isso, estão sendo realizadas ações para que os pequenos agricultores vejam a fabricação de biocombustíveis como uma atividade complementar à produção de alimentos, que deve continuar sendo a principal vocação da agricultura familiar.
Escassez de alimentos
Nos Estados Unidos, por exemplo, o anúncio de um plano do governo para alcançar a produção de 10 bilhões de toneladas de etanol por ano influenciou o preço do milho - que é usado como matéria-prima do etanol, mas também é fundamental para a fabricação de ração animal.
Na cadeia produtiva de alimentos, uma queda na oferta de milho prejudicaria os criadores de aves e suínos, pois poderia resultar tanto no aumento do preço dos produtos alimentícios quanto em sua escassez. Por causa de riscos como esse, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) tem orientado os produtores a manter a prática de múltiplas lavouras.
Do ponto de vista ambiental, a melhor solução a longo prazo, segundo avaliação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), é a produção de biodiesel aproveitando produtos regionais, como o dendê, no Norte, o babaçu, no Nordeste, e outras oleaginosas, como o girassol. Como são naturais, essas culturas fazem parte do ambiente de cada região e estão integradas ao clima e ao solo.
Impacto na natureza
Pesquisadores também vêem com cautela a expansão da cana-de-açúcar, por causa de outras implicações que ela pode trazer. A prática da queimada da palha após a colheita, além da poluição, que provoca doenças respiratórias, também causa sérios danos ao solo.
A vinhaça, resíduo das destilarias de álcool, pode contaminar os lençóis freáticos. Hoje, a indústria do setor desenvolve métodos para uso da vinhaça como fertilizante, e há leis que fixam prazos para o fim das queimadas.
Independentemente de todos os problemas, o plantio de cana-de-açúcar vem se alastrando pelo país. Tradicionalmente, os estados de São Paulo e Pernambuco lideram a produção. Mas tem crescido o número de agricultores paranaenses que adotam a cultura.
Os canaviais se expandem na direção dos estados de Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Piauí e Tocantins, onde as condições climáticas e de solo são favoráveis ao cultivo e o impacto sobre o meio ambiente seria menor. Até no Pantanal Mato-Grossense a adoção da cana vem sendo estudada, apesar de a região não ser adequada para a planta, o que resultaria num produto de baixa qualidade e rentabilidade, segundo a Embrapa.
A soja também dá biocombustível
Quando tratamos de monocultura no Brasil, também estamos falando da soja. A soja é, há mais de dez anos, a principal estrela do bem-sucedido agronegócio brasileiro. Para ter uma idéia de sua importância, desde 2000 a área plantada cresceu 70%, chegando a 23,1 milhões de hectares em 2005.
Na década de 1980, ela se concentrava no estados do Sul, mas atualmente está presente na maior parte do território nacional. Sua importância é tão grande que os pesquisadores desenvolveram mais de 30 variedades de grão adaptadas a todo tipo de solo e clima do Brasil, permitindo que o plantio se espalhasse para o Centro-Oeste, parte do Nordeste e franja sul da Amazônia.
O Brasil é o segundo maior produtor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A previsão para 2007 é que o país exporte mais de 50 milhões de toneladas de soja, faturando cerca de 10 bilhões de dólares. A grande virtude da soja é seu múltiplo uso. O principal ainda é a fabricação de óleo comestível, mas esse grão também é matéria-prima de muitos itens da agroindústria e das indústrias química e de alimentos.
Na alimentação humana, o produto está em embutidos, chocolates e¿ temperos para salada. A proteína da soja é base de massas, produtos industrializados de carne, cereais, misturas preparadas, bebidas e alimentos para bebês e dietéticos.
A lecitina de soja é importante agente na fabricação de salsicha, maionese e achocolatado. Ela tem papel fundamental na pecuária e na avicultura, pois é o principal item da ração de vários animais, como aves, suínos e bovinos.
A soja também é muito utilizada pela indústria na fabricação de adesivos e nutrientes, adubos, espuma, revestimentos e tintas. E é justamente essa diversidade que pode salvá-la. Isso porque, atualmente, há pesquisas que estudam o uso do grão como fonte alternativa de combustível. O biodiesel de soja vem sendo testado em muitos laboratórios no Brasil, como os da Embrapa, em várias cidades brasileiras.
O setor sucroalcooleiro movimenta 20 bilhões de reais. A produção de etanol é de 18 bilhões de litros
Monocultura, uma prática antiga
[img1]As crises de escassez de alimentos e a alta de preços dos itens de alimentação básica em decorrência da monocultura foram problemas constantes para a população do Brasil colônia, em vários pontos do país, em diferentes momentos históricos.
No início do período colonial, a prática nas zonas agrícolas era o descuido no plantio de qualquer outra lavoura que não fosse a rentável cana-de-açúcar. Cada pedaço de terra e todo o esforço da mão-de-obra escrava eram destinados à produção do valioso açúcar. Em Pernambuco, durante a ocupação holandesa, no século XVII, no governo de Maurício de Nassau (1637-1644), houve uma tentativa de evitar os efeitos negativos da monocultura.
Nassau ordenou que os senhores de engenho e lavradores plantassem também legumes, frutas e principalmente a mandioca, o "pão do Brasil", que era a base da alimentação popular. Também mandou ladear as ruas do Recife com árvores frutíferas, além de proibir o lançamento do bagaço da cana nos rios, para evitar a mortandade de peixes.
No século XVIII, houve escassez de alimentos na Bahia, onde se plantavam a cana-deaçúcar e o tabaco. A "extraordinária falta de farinhas", como se lê nos documentos da época, fez com que, em 1788, o governo obrigasse os donos de terras a plantar "mil covas de mandioca por cada escravo que possuísse empregado na cultura da terra".
RESUMO
Agronegócio
ACORDO BRASIL-EUA Em março de 2007, os presidentes Lula e George W. Bush assinaram o acordo de cooperação para pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis. Os dois países, que já são líderes na produção de combustível vegetal, saem na frente na corrida pela liderança do setor.
MATÉRIAS-PRIMAS O biodiesel pode ser produzido com óleo extraído de diversas plantas, como palma, mamona, soja, girassol, dendê e algodão. Dentre os vegetais mais adequados para a produção do álcool combustível está a cana. O Brasil é o maior produtor mundial de álcool e de açúcar.
MONOCULTURA A produção de combustível vegetal pode levar o país à monocultura da cana-de-açúcar. Ela traz desvantagens ambientais, porque agride o solo; sociais, porque reduz o uso da mão-de-obra e afugenta as populações rurais; e econômicas, pois a queda do preço pode pôr a perder toda a cadeia produtiva regional.
PERIGOS A expansão mal planejada da cana-de-açúcar poderia pôr em risco a produção de alimentos. A queimada da palha após a colheita provoca doenças respiratórias e causa sérios danos ao solo. A vinhaça, resíduo das destilarias de álcool, com o tempo pode contaminar os lençóis freáticos.
EXPANSÃO O cultivo da cana-de-açúcar se alastra pelo país. São Paulo e Pernambuco lideram a produção, mas os canaviais se expandem pelos estados de Minas Gerais, do Paraná, de Goiás, do Maranhão, do Piauí e do Tocantins.
SOJA Desde 2000, a área plantada cresceu 70%, chegando a 23,1 milhões de hectares em 2005. Nos anos 1980, o cultivo de soja se concentrava no Sul. Atualmente está presente em quase todo o território nacional. O Brasil é o segundo maior produtor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2007, estima-se que o Brasil exporte mais de 50 milhões de toneladas de soja, faturando cerca de 10 bilhões de dólares.
Em março de 2007, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e George W. Bush, dos Estados Unidos, assinaram acordo de cooperação bilateral para pesquisa e desenvolvimento de combustíveis produzidos com matéria orgânica, os biocombustíveis. Os dois países, que já são líderes na produção de combustível vegetal, saem, assim, na frente na corrida pela liderança do setor. A iniciativa abre novas perspectivas para o Brasil, pois o país é um dos mais adiantados nessa tecnologia, que vai determinar os rumos da produção mundial de combustíveis nos próximos anos.
No Brasil, a produção de biocombustível, em particular o etanol feito da cana-de-açúcar, vinha sendo impulsionada desde o início desta década pelo aumento da frota de veículos com motores flex, que funcionam com mais de um tipo de combustível.
Recentemente, houve novo estímulo à produção quando países ricos começaram a tornar público que pretendem adotar alternativas para os derivados de petróleo. As discussões ainda estão na mesa dos governos.
De concreto para o Brasil, já existe um acordo bilateral com a Alemanha para a produção de 100 mil veículos movidos a álcool. Ao importar os veículos do Brasil, os alemães terão como cumprir seu compromisso com o Protocolo de Kyoto, que prevê a redução da emissão de poluentes.
Plantio extensivo
A adoção de um biocombustível como o álcool em escala internacional traria benefícios econômicos ao Brasil. Ocorre que esses ganhos podem vir acompanhados de terríveis prejuízos sociais e ambientais, se não forem tomadas as medidas necessárias para evitar o pior. Isso porque a produção de combustível vegetal pode reconduzir o país à prática da monocultura da cana-de-açúcar.
A monocultura é o plantio extensivo de um único vegetal. Ela traz desvantagens ambientais ocorrem porque exaure o solo com o tempo e reduz a biodiversidade. As desvantagens sociais ocorrem porque reduz o uso da mão-de-obra no campo e afugenta as populações rurais.
E ainda há desvantagens econômicas, pois apresenta enormes riscos, já que uma única doença ou praga ou a queda do preço do produto no mercado podem pôr a perder toda a cadeia produtiva regional.
Apesar da multiplicidade do agronegócio brasileiro, pode-se dizer que em grandes áreas do país já se pratica a monocultura da soja, a principal estrela da agricultura nacional e responsável até 2005 por 44% de toda a área cultivada do país.
Hoje, no entanto, o maior temor é que o interesse internacional pelo biocombustível seja tão grande que a cana-de-açúcar se torne uma cultura predominante de extensão ainda maior do que a da soja. A produção de óleo em larga escala também exigirá o cultivo de enormes extensões, e cada produtor tende a escolher uma única planta, para facilitar e baratear o plantio.
O biodiesel pode ser produzido com óleos vegetais extraídos de diversas matérias-primas, como palma, mamona, soja, girassol, dendê e algodão, entre outras. Como se vê, o leque de recursos naturais no Brasil é muito grande, mas, dentre os vegetais mais adequados para a produção de biocombustível, está a cana - largamente conhecida pelos agricultores brasileiros há cinco séculos.
Liderança no setor
O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar e álcool.